23 abril, 2018

JOSÉ DE RIBERA- MAGDALENA VENTURA COM O SEU MARIDO E FILHO



A decisão, há tempos, do metro de Londres em não tratar mais os seus utentes por «senhoras e senhores»  para não excluir outras identidades é apenas um pormenor de um tempo em que dividir o mundo entre homens/mulheres ou masculino/feminino, se tornou simplista, exclusivo, discriminatório e reaccionário. Houve um tempo (no fundo, todo o tempo) em que de um lado havia homens, os quais faziam coisas que só os homens faziam, e do outro mulheres, as quais faziam coisas que só as mulheres faziam. Entretanto, e muito felizmente, passámos a ter homens que fazem coisas que as mulheres passaram também a poder fazer e mulheres que fazem coisas que também os homens passaram a poder fazer. Passámos assim a ter um mundo (refiro-me, claro, aos países cristãos desenvolvidos) em que cada vez mais, de um ponto de vista social, cultural e familiar, é cada vez menos importante ser homem ou mulher. Chama-se a isto evolução pessoal, social, moral e até civilizacional.

Ainda assim, continua a ser um tremendo incómodo, tanto de um ponto de vista prático (por exemplo, casas de banho) como legal, como psicológico, haver apenas homens e mulheres ou apenas género masculino e feminino, mantendo-se assim uma visão simplista, exclusiva, discriminatória e reaccionária. Isto, porque existem mais orientações sexuais do que o número de vezes que o Sporting foi campeão nos últimos 40 anos. Algo ignorante nestas matérias, fui pesquisar, sendo então informado de que a heterossexualidade é apenas mais uma orientação entre outras, como a homossexualidade, a bissexualidade, a transsexualidade, a panssexualidade (também conhecida por omnissexualidade, polissexualidade ou trissexualidade), a assexualidade e o intergénero. Embora nalguns casos me pareça mais tratar-se de desorientação do que de orientação sexual, todas elas me merecem tanto respeito como alguém que tem a casa cheia de posters do Tony Carreira, ser Testemunha de Jeová ou preferir o Macdonald's a um cabrito assado com batatas e grelos. Gostos que não partilho mas que considero absolutamente indiferentes no que ao carácter da pessoa diz respeito assim como aos seus direitos enquanto cidadão, ou vá, cidadã. Daí cada vez mais o incómodo em continuarmos a pensar e a agir como o clássico e redutor sistema binário homem/mulher, masculino/feminino. O ideal seria mesmo que, tanto em termos práticos como legais ou psicológicos, deixasse de haver homens e mulheres ou género masculino e feminino que nos aperta e limita como desconfortável camisa de força.

Estava eu nestas elucubrações quando, de repente, me lembro do quadro de Ribera. Céus, há quanto tempo não o via ou sequer pensava nele. Resultado desse tempo distante e do facto de alguns dos mais importantes pintores espanhóis do século XVII, como é o caso de Ribera assim como de Murillo ou Zurbarán, pintarem santas, algumas delas mártires, como Santa Cassilda, Santa Lúcia, Santa Apolónia ou Santa Úrsula, fui levado a pensar, arbitrária e erradamente, que a figura feminina representada no quadro fosse a de uma santa. Não é. Não é, mas há qualquer coisa de nobre e hierático na sua figura que surge assim, com toda a dignidade, frontalidade e de cabeça erguida, diante dos nossos olhos, na companhia do marido que, em vez de fugir, esconder, aparecer de costas, de cara tapada, a assobiar para o ar, assume sem complexos a transformação física da esposa. Impressionante, pois, como um quadro do século XVII e de um pintor tão dado a temas religiosos, se revela de uma modernidade avassaladora. Para além disso, convém não esquecer que, para além da bela ressonância do seu nome próprio há que contar com o fortíssimo simbolismo do seu apelido: Ventura.

Em suma, a modernidade desta mulher (chamemos-lhe assim), não se deve apenas a razões conceptuais e ideológicas, juntando no mesmo corpo uma ubérrima dimensão mamária e uma viril capilaridade. Permite também perceber que o seu destino, com o qual não contava, não lhe retira qualquer espaço, mantendo uma dignidade que é ao mesmo tempo feminina (a criança ao colo que o diga e provavelmente o marido que tem bem com que se entreter) e masculina, não ficando atrás de homens de barba rija como o Barbas da Costa da Caparica ou os actuais barbeiros hipsters. No fundo, há qualquer coisa de utópico nesta figura ambígua, abrindo as portas para qualquer conjectura de natureza sexual. Quem sabe se, ainda que num futuro ainda  longínquo, resultante de um processo filogenético amigo da liberdade e da criatividade sexual, não iremos ter este modelo de humanidade no que seria uma verdadeira revolução antropológica que elimina sexos, géneros, identidades sexuais rígidas, passando apenas  a haver pessoas sexuadas, seja lá o que isso for.

22 abril, 2018

CRIME E CASTIGO DA DEMOCRACIA

Francis Bacon | Estudo para um Retrato

Um dos aspectos mais chocantes e nefastos da nossa democracia é a sensação de impunidade perante crimes graves ou outras ilegalidades praticadas por políticos ou pessoas com importantes cargos públicos ou privados. Na verdade, tanto uns como outros deveriam ser seriamente punidos. Mas um sistema judicial pesado e tortuoso, certas leis e procedimentos legais, bons advogados ou bons amigos num país em que toda a gente come nos mesmos restaurantes, permite a muitos, demasiados, passar entre os pingos de chuva sem se molhar.

Quem acaba de ler esta dramática introdução vai pensar que ou acordei maldisposto ou vim há pouco de um café de bairro onde estive a ler e comentar o Correio da Manhã com outros "populares", motivando-me agora um ímpeto justiceiro face aos políticos e toda a gente importante que se anda a amanhar nas costas do povo. Não, nem uma coisa nem outra, nem sou sequer o tipo de pessoa que considera os políticos uma "cambada de gatunos".

O meu problema é outro. Nós podemos apreciar a democracia e, racionalmente, não desejarmos trocá-la por outro regime. Mas a democracia, ou sociedade aberta, é frágil. Trata-se de um regime frio e bem diferente de projectos românticos de unidade que criam laços entre as pessoas graças a uma transcendente ou "religiosa" legitimação, seja por Deus, um partido político ou um líder em quem nos revemos e que sentimos como nosso, tornando a sociedade numa espécie "terceiro anel" do estádio da Luz, no qual não há espaço para divergências, conflitos de interesses, estando todos a remar para o mesmo lado. Não por acaso, projectos e ímpetos autoritários viram-se com verdadeiras auto-estradas à sua frente para poderem avançar, devido a falhadas experiências democráticas com as suas naturais dificuldades em dar origem a uma  "religião civil".

Sentirmo-nos desfavorecidos e injustiçados numa sociedade com tiques oligárquicosd e com um assalto aos aparelhos de estado e económico por pessoas sem escrúpulos que os degradam, será sempre um risco para a democracia. Já haverá poucos taxistas a reclamar a necessidade de três salazares. Mas o taxista que há em muitos milhões de doutores Jekyll está sempre a espreitar. Basta ler jornais para o perceber. Ao contrário do que podemos pensar, em 2018, a democracia não é um dado adquirido. Daí nunca deixar de haver crimes sem castigo pois será sempre a democracia que acaba por ser castigada.

21 abril, 2018

VÍCIOS PRIVADOS, PÚBLICOS VÍCIOS

Francis Bacon | Estudo para um Retrato

Sinceramente, gostaria que alguém me explicasse como é possível, na vida pública, existirem práticas que o bom senso considera imorais mas que por serem legais não podem ser punidas. Todos os anos explico aos alunos que é o direito a depender da moral e não a moral a depender do direito. Se uma coisa é considerada moralmente incorrecta não é porque o direito a condena mas, pelo contrário, se o direito a condena é por ser moralmente incorrecta. O que haverei eu responder se um destes dias vier um aluno perguntar como é possível uma lei que legitima a acção de um ministro, deputado ou pessoa com um cargo público, considerada imoral?

É verdade que há coisas moralmente incorrectas embora não puníveis por lei. Mentir a um amigo pode não ser a coisa mais edificante mas não se pode punir juridicamente alguém por isso. Se alguém for fazer queixa à polícia ou meter advogado porque um amigo lhe disse ao telefone estar doente em casa quando, afinal, andava na farra com outros, mentira que o entristeceu e deixou revoltado, arrisca-se a ser motivo de escárnio. Claro que o amigo pode ser julgado e até condenado... mas moralmente. Tal acontece porque há coisas na vida privada das pessoas que terão de ser elas a resolver entre si, e ainda bem que assim é. Fosse punido por lei tudo o que fazemos de menos correcto moralmente e as nossas vidas seriam um enorme pesadelo.

Mas no que à vida pública diz respeito as coisas terão de ser completamente diferentes e não se usar uma má lei como pretexto para legitimar uma acção moralmente incorrecta. Ouvir um deputado reconhecer, algo envergonhado, o lado moralmente duvidoso da sua acção mas que dorme tranquilo só porque a lei não o impede de fazer, a única coisa que consigo sentir é um profundo asco e desprezo pela pessoa que a praticou, pela lei que lhe permite praticar, assim como pela pessoa que fez a lei.

19 abril, 2018

HERACLITO & COMPANHIA


Bem poderíamos ver neste homem pintado por Fragonard, a hierática figura de um santo cristão. Por exemplo, ou sobretudo, S. Jerónimo, uma das figuras mais retratadas na história da pintura e sempre no mesmo registo: solitário, austero, despojado de bens materiais, lendo ou escrevendo, bem longe da vida mundana e das vaidades deste mundo. Claro que soaria estranho Fragonard a pintar S. Jerónimos e afins. O seu mundo é o do prazer, da alegria, da festa, da galantaria, do erotismo, da transgressão, de luxuriantes jardins rococós, um mundo protagonizado por uma classe social cujas motivações hedonistas não poderiam divergir mais das de um santo mergulhado na sua meditação e em exercícios espirituais no deserto. Mesmo que pinte uma menina a ler, será uma menina coquette a ler.

Este homem pintado por Fragonard é um filósofo. Não de um filósofo em particular. Fosse esse o caso e a pintura seria outra. Estamos longe do século XX e um retrato não pode fugir da sua essência «fotográfica» que revela ao mundo o modelo retratado. Ora, não sendo «um» filósofo em particular isso dá ao pintor toda a liberdade para pintar «o» filósofo, quer dizer, a figura que para o pintor melhor exprima a ideia de filósofo. E que figura é essa? Uma figura algo impressionista, cujas formas parecem desvanecer-se, em que a matéria do seu corpo é feita da mesma matéria dos seus livros, uma figura completamente mergulhada na leitura. Não pode ser um livro qualquer, o que lê. Veja-se a expressão do rosto e o movimento do corpo lançado na direcção do livro como quem acede, tal como um profeta bíblico, a um conhecimento raro e inacessível para a maioria das pessoas que, como diria Heidegger andam distraídas nas suas vidas ou, como diria Pascal, nos seus pequenos divertissements.

É difícil olhar para «o» filósofo de Fragonard sem pensar no filósofo de Rembrandt em processo de meditação no seu fáustico gabinete



ou ainda neste filósofo, também de Rembrandt e, neste caso, como  o de Fragonard, lendo um livro


Sim, há diferenças. Enquanto o filósofo de Fragonard parece, com a sua leitura, estar a passar por uma experiência intelectualmente torrencial, os filósofos de Rembrandt estão tão tranquilos e suspensos na sua meditação ou na sua leitura como alguém que está dormindo. De qualquer modo, não deixam de ser representados na margem da realidade mundana. Posso até mesmo dizer: da realidade profana. Basta compará-los com o seu Jeremias lamentando a destruição de Jerusalém, com o seu S. Paulo de olhar completamente alheado do mundo que o rodeia, com o modo como apresenta a figura de Cristo em Emaús ou até com o modo crespuscularmente sereno revelado na cena nocturna da sagrada família. Estes filósofos de Rembrandt, como o de Fragonard, não são santos mas também poderiam sê-lo.

Porém, nenhum destes três filósofos, ou antes, nada nesta ideia de filósofo, bate certo com a psicologia emanada dos verdadeiros retratos de filósofos. Vejam-se os retratos, digamos «oficiais», de David Hume



de Leibniz


de Voltaire, ao lado de Frederico II, em Sanssouci


de Kant


ou até mesmo este Descartes do meu muito querido Frans Hals, bem longe das caricaturadas personagens do pintor holandês


O que vemos aqui são homens com uma posição social elevada, cientes do seu prestígio, com uma gravitas burguesa ou aristocrática, homens que são aqui apresentados como filósofos mas que bem poderiam ser comerciantes, banqueiros ou apenas pessoas ricas vivendo dos seus rendimentos.

Podemos então dizer que a versão de Rembrandt e Fragonard sobre o que é «um» filósofo não bate certo com a verdadeira identidade «dos» filósofos? Sim, podemos. Os filósofos, grandes ou pequenos, são, na verdade, pessoas como outras quaisquer, e isso tanto pode ser entendido nas suas vidas institucionais como nas suas vidas pessoais. Nietzsche era um louco cujo passatempo preferido era andar pelas ruas de Turim a agarrar-se a cavalos maltratados pelos donos? Não, Nietzsche não enlouqueceu por ser filósofo mas porque o seu sistema nervoso central foi afectado pela sífilis, doença normal à época. Se Nietzsche surge aqui


tão «munchiano» não é por ser filósofo mas por ser um ser tão mentalmente perturbado como outras figuras munchianas. Quisesse o pintor norueguês pintar Kant, Hegel, Fichte ou Schopenhauer e o filósofo seria outro.

Há filósofos distraídos? Sim, há, como há engenheiros, músicos ou contabilistas distraídos. Se um engenheiro não é distraído por ser engenheiro, o mesmo se passa com um filósofo. Há filósofos com ar grave e sério? Sim, como há bancários, empresários ou agricultores com ar grave e sério. E convém lembrar que o mesmo Tales que caiu num buraco por andar a olhar para as estrelas, motivando o escárnio de uma escrava trácia, foi o mesmo Tales que se fartou de ganhar dinheiro graças aos seus conhecimentos.

Porém, a versão popular que se desenvolveu do filósofo, tendo chegado até ao século XX, foi aquela que vemos representada nos quadros de Rembrandt e de Fragonard. Pronto, está bem, um homem de carne e osso e no que às aparências diz respeito, igual a qualquer outro. Porém, lá no fundo, não é uma pessoa qualquer. Há muita gente que não é uma pessoa qualquer. Mas o que faz com que um rei, um presidente da república, um ministro, um músico, um grande empresário não sejam umas pessoas quaisquer, não é o mesmo que faz com que um filósofo também não o seja. A marca distintiva de um filósofo será sempre uma alma oracular, a capacidade de pensar coisas que mais ninguém pensa, de complicar coisas que são simples por ver  nelas o que mais ninguém vê, enfim, o dom quase místico de ocupar uma vida inteira com questões como «Por que há o ser em vez do nada?», «O que é uma coisa?», «Será a realidade real?», «Será que um carro cujas partes foram mudadas continua a ser o mesmo carro?». Claro que quem se ocupa com questões desta natureza ou de outras mais «populares» relacionadas com a existência de Deus, a imortalidade da alma ou o sentido da vida, e levando-se a sério por isso, não pode ser uma pessoa como outra qualquer, movimentando-se num universo espiritual onde poucos conseguem entrar e onde só se consegue subsistir graças a uma certa excentricidade. É verdade que formalmente como obscuro só tivemos um filósofo: Heraclito; Heraclito, o Obscuro. Porém, se virmos bem, a obscuridade é um traço de personalidade e de pensamento que, de uma maneira ou de outra, seja com base numa versão mais romântica, seja com base numa versão mais cómica ou até de desprezo, marca o imaginário popular a respeito do filósofo.

Hoje, porém, as coisas mudaram bastante no que diz respeito à imagem pública e popular do filósofo, sendo talvez a França ainda uma excepção. Claro que haverá pessoas mais velhas que ainda continuam a encarar o filósofo com um misto de veneração intelectual e desconfiança. Há uns anos, tendo ficado alojado em casa de uma professora reformada, em Londres, quando ela soube que eu era professor de Filosofia, fez um ar de espanto e logo disse: "Oh, you must be very clever!". Fiquei naturalmente envergonhado, até pela consciência de ter uma inteligência medianíssima que apenas me permite compreender o mesmo que à esmagadora maioria da população com alguma formação. Se eu tivesse dito que era professor de Matemática, de Inglês, de Física, de História ou de Educação Visual, estou certo de que não teria dito o mesmo a meu respeito, ainda que para o ser seja necessária inteligência ou até mesmo muita inteligência. Porque a inteligência a que ela se quis referir é de outra ordem, revestida de alguma obscuridade e mistério, a tal ordem que escapa aos mecanismos normais da inteligência comum e que associamos a áreas como a Biologia Molecular ou a problemas trigonométricos. Mesmo um especialista em Física Quântica, ao qual se reconhece grande inteligência, mesmo um cientista como Stephen Hawking, digno herdeiro de Einstein no que à visão popular da inteligência científica diz respeito, seriam vistos como tendo uma inteligência de uma natureza diferente da inteligência do filósofo, mais especulativa e livre, sem as amarras da dedução científica.

Hoje, porém, as coisas vão-se tornando, a pouco e pouco, bastante diferentes. A principal razão, de natureza histórico-cultural, tem que ver com o facto de ter acontecido à Filosofia o que já antes havia acontecido à religião: uma crise de grandes narrativas e sistemas que alimentavam todas as nossas leituras do mundo, tendo como consequência uma perda do seu impacto no mundo intelectual e social. Se entrasse agora num café e pedisse às primeiras pessoas que encontrasse para me darem o nome de três filósofos vivos, posso prever o fracasso da missão. Isto, apesar de se continuar a fazer filosofia de um modo bem vivo e estimulante, de continuar a haver grandes debates filosóficos no mundo académico, de continuar a haver filósofos de ponta que escrevem excelentes ensaios filosóficos. Porém, já não são grandes maitres à penser, gurus de reis e princesas, intelectuais que se metem por questões enigmáticas a que poucos têm acesso. Quantos filósofos do século XX fazem de Deus, da alma e do mundo, em sentido kantiano, os seus grandes temas? Com algumas excepções, a Filosofia tornou-se analítica, resolvendo problemas através de uma linha argumentativa que expulsou o escritor, o divagador, o literato que havia dentro de tantos filósofos. O filósofo, hoje, por muito importante que seja, não passa de um intelectual anónimo como qualquer matemático ou cientista de quem ninguém ouviu falar. A consequência boa foi o filósofo ter deixado de ser visto popularmente na linha de Heraclito, o obscuro, que ainda vemos representada nos quadros de Rembrandt e Fragonard. A consequência má é o facto de não ter deixado de ser obscuro para passar a ser apenas um intelectual normal. Foi, pura e simplesmente, por ter publicamente morrido, quando por vezes até faz bastante falta.

18 abril, 2018

O CAPITAL

Quentin Massys | O Banqueiro e sua Mulher

Acabámos com o comunismo mas continuamos a ter comunistas. Isso é possível devido a um conjunto de crenças e desejos cuja autonomia os liberta do princípio da realidade. Cada um acredita e deseja no que bem entender, e tanto podemos livremente acreditar no que desejamos como livremente desejar aquilo em que acreditamos. Contrariamente ao que aconteceu com o comunismo, não acabámos com o capitalismo e continuamos a ter capitalistas. Para tentar acabar com o capitalismo poder-se-ia acabar com os capitalistas. Acontece, porém, que depois de acabarmos com os capitalistas voltaríamos a ter de novo capitalistas e, consequentemente, capitalismo. Este, ao contrário do comunismo, não resulta de um conjunto de crenças e desejos libertos do princípio da realidade para serem impostos à natureza humana, mas da própria realidade que nos impõe certas crenças e desejos em função da natureza humana. Crenças e desejos que não são perfeitos uma vez que a realidade também não o é, porque também não o é a nossa natureza. Claro que há capitalismo melhor e pior. Não no sentido do primeiro ser mais perfeito do que o segundo mas apenas por conseguir ser menos imperfeito. O que já é muito bom, diria mesmo, uma grande conquista civilizacional.

17 abril, 2018

A CAMA DE PROCUSTO


Estou a dar aula e a meio de uma frase uso a expressão a priori no seu sentido mais vulgar. Uma aluna levanta o braço para perguntar o que significa. Pergunto-lhe se nunca ouviu mesmo a expressão mas já ouviu embora sem saber o que significa. Nunca tinha ouvido. Outros alunos, porém, sabiam o seu significado. Acontece frequentemente haver coisas que alguns alunos sabem e outros não, portas que estão abertas ou fechadas, até nos modos e comportamentos, não por estudarem mais ou estudarem menos mas por causa da sua origem social, das conversas que ouvem à mesa e de muitas outras experiências relacionadas com essa origem.

Isto faz com o que o princípio da igualdade de oportunidades que imprime justiça nas acções humanas acabe por não se aplicar com rigor à escola. Dois alunos estão na mesma escola, na mesma turma, estudam pelos mesmos manuais e em nada divergem no que toca à sua experiência escolar. Mas conta, e muito, o que acontece antes de chegarem à escola. Isso pode fazer com que um aluno mais inteligente, motivado, responsável e trabalhador fique em desvantagem a um outro que o seja menos mas que ganhou, sem qualquer mérito, o prémio da lotaria familiar e social no que diz respeito a certas aprendizagens, muitas vezes essenciais, para poderem singrar em certos meios.

Então imaginemos agora um governo completamente obcecado com os princípios da justiça, um governo que fizesse da justiça social uma das suas principais lutas. Para evitar qualquer tipo de desrespeito pelo princípio da igualdade de oportunidades em crianças e jovens, tomaria a seguinte decisão, digamos, espartana: desde cedo, as crianças sairiam das suas casas para irem estudar, como internas, em instituições escolares que, de norte a sul, de oeste a este, cumpririam escrupulosamente um conjunto de padrões universais sem o mínimo desvio. As escolas seriam todas iguais, os professores seriam todos iguais (e vigiados de forma rigorosa para evitar desvios), as refeições todas iguais, leriam todas os mesmos livros, veriam todas os mesmos filmes, todos, em excursões organizadas, viajariam pelos mesmos lugares. Tudo isto até ao 12ºano. Até lá, estariam com as suas famílias apenas durante as férias escolares a fim de não contaminar a pureza e absoluta bondade do princípio da igualdade de oportunidades.

Seria possível um modelo assim? Havendo dinheiro para isso, sim, por que não? Seria apenas uma questão de o Estado assumir nas suas escolas o mesmo regime de internato de alguns colégios. Seria justo? Sim, completamente justo. As diferenças que viriam a ocorrer entre crianças e jovens dever-se-iam, assim, apenas a critérios puramente individuais e não familiares e sociais. Mas também é fácil perceber o filme de terror associado a um regime desta natureza. Tudo isto para mostrar que bons valores ou princípios, como é o caso da justiça, do bem, da igualdade, quando levados demasiado a sério, motivados por um instinto de perfeição humana, trazem mais prejuízos do que benefícios. Uma má ou razoável imperfeição será sempre melhor do que uma  tenebrosa embora inestimável, quanto ao princípio, perfeição.

16 abril, 2018

O FOGO E AS CINZAS

Arthur Tress | Trabalhadores dos serviços regressando a casa, NY, 1966

O jornalista é visto como aquele que conhece a realidade, que a sabe na ponta da língua. A sua função é andar atrás dela em busca dos seus mais ínfimos vestígios, seja na vida política, social e económica, sejam acidentes rodoviários ou crimes de sangue. O escritor, pelo contrário, enquanto criador, é visto como um visionário cuja criação não passa de um artifício narrativo, uma sombra do mundo quotidiano, como diria Platão. Mas será mesmo assim? Até que ponto as pessoas que vão surgindo num jornal à medida que se vai folheando existirão mais do que Hamlet, Macbeth ou Prospero? Até que ponto os franceses e russos que combateram em Austerlitz ou Borodino são mais reais do que as personagens de Tolstoi que combatem em Austerlitz ou Borodino? Ou até que ponto a realidade é mais real do que a ficção que se constrói a partir dela realidade?

Tudo o que existiu, existe e existirá, no espaço e no tempo, é absolutamente contingente. Se os pais de Hitler não se tivessem conhecido ou se o pequeno Adolfo tivesse morrido de doença em criança, a história do século XX seria outra. A actual e verdadeiramente real vida política portuguesa é feita de personagens que existem mas que poderiam não existir, e quem diz isso diz o acidente de automóvel que mata uma família inteira e que enche metade da capa de um jornal. Histórias registadas diariamente pelos jornais e que, como dizia Gide, no dia seguinte já se tornaram demasiado velhas. A realidade é como o leite: está fresca hoje mas depressa azeda para se deitar fora. A literatura, por sua vez, é feita de personagens e de histórias que se cristalizaram, que se tornaram imutáveis arquétipos e que, ao contrário das pessoas empíricas, surgiram da cabeça de um escritor como criador de mundos. Quando os pais de Hitler fornicaram, tendo dado vida a um pequeno austríaco, não tiveram a intenção de criar um dirigente político, um militar ou o autor de um livro chamado Mein Kampf. Limitaram-se a fazer uma criança. Mas Hamlet, Macbeth ou Prospero já são personagens saídas da imaginação de um escritor que quis criar Hamlet, Macbeth ou Prospero. O escritor criou-as como deus cria o mundo, sabendo muito bem o que queria criar e para quê. Quando os meus filhos ou netos morrerem desaparecerão as últimas pessoas a terem memória da minha existência. Pessoas de todos os tipos e feitios foram, são e serão para sempre apagadas do espaço e do tempo. Inteligentes e estúpidos, ricos e pobres, astutos, ciumentos, corajosos, ambiciosos, loucos, fanfarrões, traidores, enfim, amantes que amaram perdida e fervorosamente. Já Romeu e Julieta sobreviveram às hecatombes do tempo. Eles, Tristão e Isolda, Carlos e Maria Eduarda, Teresa e Simão Botelho. Mas também Ulisses, Príamo, Antígona, Pantagruel, Orlando, Ofélia, Quixote, a pastora Marcela, Tristam Shandy, Dorothea Brooke, Julien Sorel, Raskolnikov, Pierre Bezukhov, a pequena Cosette, Aschenbach, Joseph K, Emma Bovary, D. Juan ou Svejk, aí estão todos eles, vivíssimos, despertos, sempre disponíveis para falar e agir, eternamente ressuscitados por mais uma leitura.

Ler um romance, com as suas imortais personagens, é penetrar em palcos nos quais se condensa todas as formas de vida possíveis, um palco onde se descobre o pensamento de deus antes de existir tudo o que é possível existir mas que tanto pode existir como não existir, um pensamento omnisciente e omnipotente, tornando imutável o que no mundo acontece de modo provisório e contingente. Assim como o fogo de Heraclito, eternamente aceso para quem o quiser ver, ao contrário dos jornais cujo destino morre todas as 24 horas.

15 abril, 2018



Estas pequenas coisas são grandes para um homem pequeno.

                                                               Oliver Goldsmith, O Viajante


14 abril, 2018

COMPLEMENTO CIRCUNSTANCIAL DE ESCOLHA


Hoje, no teatro Virgínia, há um concerto de Chrysta Bell, actriz e cantora de quem nunca tinha ouvido falar. Fui ver do que se tratava, tendo chegado à conclusão de que não gosto nem deixo de gostar. Quer isto dizer que jamais sairia da minha terra para assistir a um concerto dela. Há meses, fui daqui ao Hard Club do Porto de propósito para assistir a um concerto dos Swans. Valeu a pena e nem o facto de vir de lá com os ouvidos espatifados me fez ficar arrependido. Sinceramente, com esta cantora, nem sequer para ir ali a Tomar ou a Santarém me daria ao trabalho de sair de casa, ainda que regressasse com os ouvidos intactos. Mas se para a ver cantar precisar apenas de sair de casa com o espírito com que vou até ali ao café da esquina ou comprar qualquer coisa no supermercado, o cenário muda radicalmente de figura. Mas isso também não é condição suficiente para me fazer sair de casa para assistir a um concerto. Há concertos no Virgínia, que nem os 5 minutos que demoro a lá chegar ou o facto de ficar de borla, me levaria até lá. Do mesmo modo que se tivesse de ir de propósito a Madrid, Paris ou Londres para ver os Swans, também é certo que não iria.

Serve isto para dizer que há coisas de que gostamos e valorizamos, coisas de que não gostamos e desvalorizamos. Mas o facto de as aceitamos ou rejeitarmos depende, muitas vezes, não delas em si mesmas, mas das circunstâncias que nos permitem aceitá-las ou rejeitá-las. Há aquela velha e estafada frase de Ortega y Gasset em que ele diz «Eu sou eu e a minha circunstância». Mas a frase não serve apenas para marcar a nossa identidade. Serve também para determinar o que queremos ou não queremos, o que temos ou não temos, o que fazemos ou não fazemos, fazendo-nos querer, ter ou fazer coisas que valorizamos menos ou não querer, não ter ou não fazer coisas que valorizamos mais, apenas porque uma circunstância a isso nos leva. Circunstância que, mais do que condição suficiente, se transforma assim em condição necessária.

13 abril, 2018

OS PEQUENOS IRMÃOS

Diz Orwell, no Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, obra na qual se retrata uma sociedade autoritária e iliberal, que «Nada pertencia ao indivíduo, com excepção de alguns centímetros cúbicos dentro do crânio». Valha-lhes isso. Na nossa actual sociedade, uma sociedade orgulhosamente livre e aberta, tal privilégio, pelos vistos, parece já ter mingado para uns singelos milímetros cúbicos. 

12 abril, 2018

A VACA QUE RI


Aqui ao lado, na vila de Riachos, há um restaurante chamado "Xico da Vaca". Ouve-se o nome e tudo remete para um mundo paleolítico, um nome que bem poderia vir de Alves Redol, Manuel da Fonseca ou Fernando Namora. Um nome de um universo neo-realista que já não existe, de um autor que já ninguém lê. Mas se pensarmos no modo como, tanto a nível moral como legal, os animais têm vindo a adquirir um novo estatuto e novos direitos, pondo mesmo em causa o clássico antropocentrismo, este nome, substituindo o conservador  e especista preconceito segundo o qual são as vacas a pertencerem ao xicos e não os xicos às vacas, é de uma modernidade e cosmopolitismo incontornáveis. Consigo bem imaginar a admiração que qualquer urbaníssimo londrino, berlinense ou nova-iorquino defensor dos direitos dos animais e mobilizado pela leitura de filósofos como Peter Singer, irá sentir por uma terra com um restaurante deste calibre.

11 abril, 2018

ZEITGEIST

Fui cortar o cabelo. No dia seguinte, entro na sala de aula, e vai um  aluno para mim:«Eh, stor, foi à cabeleireira, hein?!». Imagino um homem a ouvir uma frase destas há 30 anos. Hoje, numa terra como Torres Novas, é praticamente uma inevitabilidade.

10 abril, 2018

   


«Duas afirmações contraditórias não podem estar ambas certas - respondeu Imlac -, mas imputadas a um homem podem ser verdadeiras as duas.»  Samuel Johnson, Rasselas, Príncipe da Abissínia



09 abril, 2018

IDEIAS AO VENTO

Robert Hecht | Páginas do livro de S. Rafael

É muito interessante a expressão "Passar uma coisa pela cabeça", como quando se diz "Ia a andar na rua e passou-me pela cabeça isto ou aquilo...". Por duas razões. Pela exactidão da expressão, a qual não poderia ser mais clara. Mas também pela sua versatilidade e proficuidade, uma vez que serão mais as nossas ideias, incluindo as mais importantes e elaboradas, a passarem por nós do que nós a irmos ter com elas. Como é que nos tornamos de esquerda ou de direita, social-democrata, comunista, liberal ecologista, republicano, monárquico, adepto do partido A ou B, fiel ao líder A ou ao líder B, enfim, como é que somos contra ou a favor de uma coisa?

Ao contrário do que se passa com um matemático ou um físico em busca de um resultado, acredito que grande parte dessas nossas escolhas não são mais do que inclinações resultantes de ideias e pensamentos que passam por nós. Quando, numa demonstração, o matemático raciocina para chegar a um resultado, segue um processo dedutivo absolutamente consciente de si próprio e do qual não se pode desviar, sob pena de alterar a sua legitimidade racional. Neste caso, é ele que vai ter com uma ideia para depois então dizer que X é verdadeiro ou que Y é falso. Ah, e então aquela cena do Arquimedes a sair da banheira, gritando "Eureka, eureka"? E a do Newton a levar com a maçã na cabeça enquanto dormia a sesta debaixo da árvore? Sim, tem a sua piada mas não é assim anedoticamente que as coisas funcionam em ciência. Mas provavelmente é assim que funcionam na vida comum de pessoas normais, ainda que com ideias e pensamentos que elas julgam controlar e cuja origem atribuem a um processo de livre e intencional reflexão. Ideias que passam pela nossa cabeça como um livro aberto pelo vento e que ficou caprichosamente aberto numa certa página . Claro que, depois, são essas ideias que iremos tentar demonstrar e legitimar com grande determinação. Fossem outras e iríamos fazer exactamente a mesma coisa.

07 março, 2018

FILHOS DE UMA DEUSA MENOR



Já perdi a conta às pessoas que me disseram ter visto a Mona Lisa e ficaram muito desiludidas. Enfim, chegaram lá e não viram nada de especial: apenas a Mona Lisa. Uma Mona Lisa igual à Mona Lisa que já conheciam, ficando sem perceber por que razão chegaram lá e não viram nada de especial e por que razão é a Mona Lisa "a" Mona Lisa. Parece assim que esperavam uma revelação e, afinal, não houve revelação nenhuma. Apesar de ser "a" Mona Lisa, a Mona Lisa é só mesmo a Mona Lisa.

Porém, grande parte dessas pessoas tirará fotografias à Mona Lisa, algumas delas farão mesmo selfies com a Mona Lisa. E daí? Que importância tem não perceber a importância da Mona Lisa? Ou o facto de haver centenas de Monas Lisas reproduzidas que tornam supérfluo o acto de puxar da máquina para mais uma reprodução das reproduções que já toda a gente viu? O que importa, sim, é ter estado em frente à Mona Lisa, ter visto a Mona Lisa, cada um ter o seu histórico e certamente único momento Mona Lisa, ainda que no meio de uma turba ululante por estar a ver a Mona Lisa, ou a grande distância dela e separada dela por um vidro, como quem visita alguém numa prisão de alta segurança. Acontece que a Mona Lisa não é um quadro. A Mona Lisa é um bezerro de ouro pintado numa tela, à volta do qual o povo canta e dança no sopé da montanha em cujo cimo o grande, o enorme Leonardo pintou algumas das mais belas pinturas de todos os tempos.



06 março, 2018

VERDADE NUA E CRUA

"Dieu me la donne, gare à qui la touche", foram as palavras de Napoleão no momento da coroação. Na mesma linha, sempre que o clero precisava de defender a sua imperial relação com a verdade, invocava a relação privilegiada com o Espírito Santo. Neste caso, uma espécie de coroação teológica da coroação política de Napoleão. Como mudou o mundo desde então e ainda bem. Hoje, pelo contrário, há muita gente a flirtar com a verdade, a acariciar a verdade, a beijar a verdade, a dormir com a verdade, sem que isso lese a sua integridade física ou moral por causa da arrogância e presunção intelectual dos, outrora, pais da verdade. A verdade parece dormir com todos e uma verdade que dorme com todos deixa de o ser. Mas o pior de tudo são os proxenetas, aqueles que se julgam mais donos da verdade do que os outros e que verdadeiramente beneficiam com ela. Há épocas históricas em que o mundo parece escorregar para as mãos dos proxenetas da verdade e confesso que já a vi bem mais longe do lupanário. E entre uma verdade coroada e uma verdade nua, indefesa e explorada, venha o diabo e escolha.

05 março, 2018

O PESO E A LEVEZA



Em 1983, conheci um rapaz alemão que tinha vindo estudar para a minha faculdade. Antes de vir, sentira a necessidade de ir a Israel, não em passeio mas numa espécie de redenção por causa do que acontecera quatro décadas antes. Ir, enquanto alemão, filho e neto de alemães, só para conhecer e estar com israelitas e mostrar-lhes que ser alemão não significa dizimar judeus. Nesse mesmo ano, vieram visitar-me umas amigas alemãs que conhecera dois anos antes, no Alentejo. Entretanto, um familiar meu organizou uma almoçarada numa casa ali perto do castelo de Almourol e levei-as. Numa fase em que já tínhamos comido e bebido bastante, um rapaz com jeito para desenhar resolveu fazer uma caricatura de uma das alemãs, acrescentando-lhe, por piada, um bigodinho à Hitler e uma braçadeira com cruz suástica. A reacção dela foi avassaladora. Desata a chorar desalmadamente, um tremendo ataque de nervos, sendo bastante difícil provar-lhe a inocência do gesto. Já recentemente, ia numa rua de Hamburgo com um amigo alemão em cuja casa fiquei alojado, quando vejo uma placa numa obra com a palavra "Achtung". Por piada, disse-lhe que "Achtung" foi a primeira palavra alemã que muitos portugueses da minha geração aprenderam por causa dos livros de guerra aos quadradinhos. Ele, septuagenário, órfão de guerra berlinense, homem de esquerda, jornalista, ficou profundamente embaraçado, abanando a cabeça e com uma expressão no rosto de quem pede desculpa por ter sido essa a primeira palavra alemã que nós aprendemos. Como se compreende, acabei por ficar ainda mais embaraçado do que ele.

O rapaz alemão, uns anitos mais velho do que eu, será agora sexagenário; a rapariga alemã, da minha idade, não anda longe disso; este meu amigo de Hamburgo vai a caminho dos oitenta. É muito peso, muito peso nos ombros, ou antes, na consciência das pessoas destas três pequenas histórias. Um peso nada agradável, sendo a leveza bem mais simpática existencialmente. O problema é existirem seres humanos, existir o mundo, existir a história, existir o mal. Estas histórias fizeram-me lembrar a reflexão de Kundera em A Insustentável Leveza do Ser sobre o peso e a leveza. Eu não sei se a história se repete, seja lá como tragédia ou comédia, deixo essa discussão para os sábios que percebem do assunto. Sei, porém, que a repetição já tem uma longa história atrás de si. Diz Kundera que se a Revolução Francesa se repetisse eternamente, os franceses olhariam hoje de maneira bem mais severa para Robespierre. Mas como ficou lá bem guilhotinado no século XVIII, olha-se para ele apenas como um nome, uma ideia. E num mundo onde não há repetição, tudo fica esquecido, tudo fica perdoado. A actual geração alemã já consegue ter uma relação bem mais leve com a sua história. Isso é bom, claro. Olham para o nazismo e perguntam: "O que temos nós que ver com aquilo?", tal como portugueses da minha geração perguntam o que têm eles que ver com os crimes da guerra colonial ou a escravatura. Porém, se o excesso de peso nos pode prender demasiado ao chão da realidade e comprometer-nos excessivamente com essa realidade, o excesso de leveza também nos pode fazer sair dela, levando as ideias, as emoções, os sentimentos, os estereótipos, os preconceitos, os ressentimentos a pairarem demasiado livremente pelo ar, podendo fazer com que a realidade se torne de novo insustentável. 

04 março, 2018

PEDIGREE LITERÁRIO


«Se um jovem da nobreza rouba umas jóias, o acto é atribuído a uma cleptomania e fala-se dele com um filosófico sorriso, sem que passe pela cabeça de ninguém enviá-lo para uma casa de correcção, como se faria com uma criança esfarrapada que tivesse roubado uns nabos». George Eliot, Middlemarch

Sei que pareço um ladrão...                     Fazem a mesma figura                          Se o hábito faz o monge
mas há muitos que eu conheço                homens que vestem bons fatos;            e o mundo quer-se iludido,
que, sem parecer o que são,                    quando lhes cheira a gordura,               que dirá quem vê de longe
são aquilo que eu pareço.                        caem também como os ratos.                um gatuno bem vestido?

António Aleixo, Este Livro que vos Deixo


Parece-me inequívoca a sintonia entre a escritora inglesa e o engraxador algarvio no modo como ambos denunciam a falsa diferença entre o que podemos considerar roubos puros e impuros, em virtude das diferenças sociais de quem os pratica. A sintonia, porém, acaba, na forma como a denunciam. Se é verdade que há roubos com um certo pedigree e roubos simplórios, não é menos verdade que também a sua denúncia pode ter mais pedigree e estilo ou ser mais rude e simplória. A literatura é uma continuação da vida por outros meios. 

03 março, 2018

NUMA RUA DE TORRES NOVAS, NUMA RUA DO MUNDO

Ontem, numa rua de Torres Novas, ia devagarinho um carro à minha frente para tentar estacionar. Nada de anormal, não fosse uma série de manobras disparatadas que me fizeram perder a calma, lançando mentalmente pragas sobre condutores que só servem para atrapalhar as vidas de pessoas normais, entre as quais, obviamente, me incluo. Entretanto, percebo que é uma mulher e, quando chega finalmente o tão desejado momento de ultrapassar, reconheço, meio envergonhado comigo mesmo, uma funcionária da minha escola com quem simpatizo bastante e costumo dar dois dedos de conversa. Como seria de esperar, perdoei. Afinal, não era mais um condutor como milhões de outros condutores, um simples ser humano, um mero cidadão do mundo, enfim, uma abstracção rodoviária com dois braços e duas pernas para conduzir, ainda por cima, de modo desastrado. Não, era uma simpática funcionária da minha escola que, num ápice, e como que por milagre, passou de inimiga a amiga, de gigantesco alvo da minha raiva a pequenino alvo da minha condescendência.

Isto que se passou foi comigo mas arrisco dizer que o mesmo se passaria com toda a gente, retirando daqui duas lições. Por um lado, não há teoria ética, por muito elegante, sofisticada ou verosímil que seja, a resistir a este choque de primária e elementar realidade tribal. Por outro, apesar da sua singeleza, serve ainda para ajudar a perceber a dificuldade de toda uma ética que se deseje global ou cosmopolita. Podemos ser todos iguais cidadãos perante a lei ou a nossa razão, o que até acaba por resultar quando o trânsito flui e todos chegam tranquilamente ao seu destino. Mas quando surgem engarrafamentos, entupimentos e pessoas que atrapalham a nossa tranquilidade e mecânica rotina, lá se vai todo o encanto da imparcialidade moral. Esta segunda lição, tem, como facilmente se percebe, um forte sentido político, tendo condições para nos dar fortes preocupações nos tempos mais próximos, como já terá dado noutros de bem triste memória.

01 março, 2018

PEÇAS PARA QUATRO MÃOS

Há que ter algum cuidado quando se fala em manipulação. Há manipulador e há manipulado, sim. Mas também é preciso perceber as situações em que o manipulado o deseja ser. Nem sempre o manipulado é levado a pensar o que o manipulador quer que ele pense. O que pode antes acontecer é o manipulador dizer o que o manipulado quer ouvir, significando isto que também este tem mãos [manus] que moldam o discurso do manipulador propriamente dito, sendo, por isso, à sua maneira, igualmente manipulador.

28 fevereiro, 2018

O HIPERATIVO CATEGÓRICO


Cada vez me convenço mais de que podemos todos aprender uns com os outros. Lá no alto da sua epistolar sapiência, já dizia S. Paulo, na Carta aos Romanos, que tanto era devedor a gregos como a bárbaros, a sábios como ignorantes. Permita-se-me acrescentar, humildemente, na mesma linha do santo, para quem, como diz na Carta aos Gálatas, não havia "nem grego nem judeu, nem servo nem livre, nem homem nem mulher", que também não há professor ou aluno, mestre ou discípulo, não por sermos todos um em Cristo mas todos um no erro e na ignorância. Mas erro que pode ser tão fecundo como a verdade, podendo todos aprender uns dos outros, pois, mais do que filhos da sabedoria, somos, na nossa radical fragilidade antropológica, filhos do erro. Não por acaso, o mais conhecido e reconhecido livro de um dos actuais vultos da literatura portuguesa, digamos que um Samuel Beckett português, se chama "Prometo Errar", quiçá inspirado no Pedro Chagas Freitas irlandês, que dizia "Falhar outra vez. Falhar melhor".

Este pequeno e parvo (perdoe-se-me a redundância) devaneio surgiu durante a correcção de um teste sobre a moral kantiana e depois de ver uma aluna a escrever sobre o "hiperativo categórico". Um erro? Sem dúvida. Mas o que é isso de errar? Quem somos nós, vis, miseráveis e mesquinhos humanos para sabermos onde está a luz ou a escuridão? O que sei, sim, é que, de ora avante, sempre que precisar de categorizar pessoas como Marcelo Rebelo de Sousa ou alunos que não conseguem estar nem quietos nem calados, já disponho da ferramenta conceptual que cá me faltava: hiperativo categórico. Como diz o povo, quando convertido às virtudes intelectuais e morais do pensamento positivo, pode-se fechar uma porta ali mas há sempre uma janela que se abre acolá.

27 fevereiro, 2018

DESCIDAS


Dizem os neurocientistas que o cérebro de um adolescente é como um carro com o motor acelerado e falhas nos travões. Salvo fleumáticas excepções, o dos adultos também. E por estradas, como diria Kant, repletas de inclinações.

26 fevereiro, 2018

GÓTICO PANORÂMICO

Quis obter informação sobre uma igreja de uma cidade europeia. Pesquiso no Google, que me dá o site oficial do turismo da cidade. Sim, tem informação mas também, num registo algo TripAdvisor, comentários sobre a igreja em questão. Logo no primeiro comentário, diz a pessoa, entusiasmada, que vale bem a pena uma visita à igreja para poder subir à alta torre a fim de desfrutar uma excelente vista sobre a cidade.

Após a queda do império e de travessia de um deserto de vários séculos, há uma fase da Idade Média em que, na Europa, as cidades começam a despontar, sendo a catedral o seu centro. Georges Duby chama-lhe "O Tempo das Catedrais". Centro que separa ainda o espaço sagrado do interior da catedral, do profano espaço exterior, separação para a qual contribui toda uma poética ou mística da altura, que permite sair da pequenez humana da cidade para entrar no elevado esplendor da igreja. Hoje, pelos vistos, já não temos um olhar centrífugo da cidade para a igreja mas esta como miradouro que serve para melhor se ver a cidade. É, definitivamente, o tempo das cidades. Um tempo que, depois do gótico radiante ou do gótico flamejante, nos trouxe, para nosso turístico prazer urbano, o gótico panorâmico.

25 fevereiro, 2018

CORREIO AZUL


Estive, há dias, no funeral de um familiar meu. O velório não poderia ter sido num sítio mais pessoal: a sala de estar da sua casa. Depois, mesmo antes de descer à terra, um neto e uma neta fizeram dois belos e emocionantes discursos aos quais foi impossível ficar indiferente. Cumprida esta sempre triste e ingrata missão, amigos mais próximos e familiares dirigiram-se para sua adega a fim de alegremente beberem do último vinho que fez antes de partir e, com os copos erguidos, lhe render homenagem. Eu não entendo nada de vida para além da morte e de geografia celeste. Mas posso garantir que nunca vi alma tão bem e poeticamente encomendada como esta.

24 fevereiro, 2018

POLITEÍSMO DOS VALORES


Quando a Conga, no Porto, ou o Mário Alturas, em Torres Novas, já apresentam na sua ementa um prato vegetariano, isso só pode mesmo significar que o mundo mudou, revelando a obsolescência das velhas categorias que serviam para o compreender.

22 fevereiro, 2018

CHEGA MUITO

É muito interessante a palavra francesa "assez". Tanto pode significar "suficiente" (avoir assez d'argent), como "bastante" (c'est assez chère). Nada como estar fora de uma língua para tomarmos atenção a certas piruetas semânticas, pois quem pensa nessa língua já o faz tão mecanicamente que não se apercebe delas. Quantos portugueses ao dizerem "Bem sei eu!" percebem que não faz qualquer sentido dizê-lo para mostrarem que nada sabem? Provavelmente, também os franceses não se apercebem da incoerente polissemia de "assez", mas para quem está de fora torna-se óbvia a discrepância entre os dois sentidos. Mas isto é de um ponto de vista lógico ou linguístico. Já se formos para um plano psicológico ou moral, logo percebemos que pode bater certo. É que para muitas pessoas, e nos mais variados contextos, só mesmo o bastante pode ser considerado suficiente.

21 fevereiro, 2018

FORÇA INTERIOR


Na sua crónica de hoje, no Público, Rui Tavares, referindo-se a Durão Barroso, recorre à expressão "É mais forte do que ele". Expressão sugestiva, à qual eu próprio recorro muitas vezes. Por exemplo, não querer comer mais chocolate e não ser capaz de parar, e então lá sai: "Pois, é mais forte do que eu" ou encontrar uma pessoa chata no supermercado e deixar de a ouvir enquanto vai falando, sabendo não ser correcto mas, raios, "É mais forte do que eu!".

Mas trata-se de uma expressão filosoficamente incorrecta. Imaginemos uma pessoa que se vai suicidar no Sítio da Nazaré e, mal se atira, arrepende-se. Aqui, sim, podemos dizer que o que impediu evitar a queda, "foi mais forte do que ela": uma lei da Física. Uma pessoa decide viver sem comer e está um, dois, três dias sem comer. Ao quarto dia, esganada com fome, decide comer. Neste caso também poderá dizer que "foi mais forte do que ela", uma vez que se trata de uma imposição da natureza. Mesmo no caso de um toxicodependente que deseja largar a heroína mas sem o conseguir, atendendo ao forte grau de amarras químicas que o prendem à droga, vejo razão suficiente para poder dizer que" é mais forte do que ele".

Mas na esmagadora maioria das situações não é isso que acontece. Falar de uma "força maior do que nós", implica essa força não fazer parte de nós. A força é a força e nós somos nós. Se o fizermos, estamos a recorrer a uma dimensão analisada por um conhecido filósofo do século passado chamado Jean Paul Sartre: a má-fé. A má-fé serve para dizermos aos outros ou a nós próprios que o que fazemos não resulta da nossa liberdade de escolha, não sendo nós, por isso, verdadeiramente responsáveis pelo que fazemos (ou pelo que não fazemos, o que também acaba por ser uma forma de fazer). Mas não é bem assim pois somos nós, nós mesmos, que tanto desejamos uma coisa como a sua contrária, sendo a tal "força maior do que nós" também parte de nós, mais concretamente, a parte de nós que deseja X e, por azar, ou sorte, sabe-se lá, é mais forte do que a parte de nós que não o deseja.

20 fevereiro, 2018

ARGENTEA MEDIOCRITAS


Dá a sensação de que para muitos críticos de cinema todo o filme começa culpado até possível prova em contrário à medida que vai decorrendo. O problema nem seria muito se não se desse o caso de haver quase sempre alguma resistência na descoberta desse contrário, levando fatalmente a um excesso de rigor na avaliação dos filmes. Eu tenho uma visão contrária: tentar sempre ver o lado positivo do filme, acusando-o apenas em caso de flagrante delito cinematográfico. Tal bonomia crítica não invalida, porém, o reconhecimento de filmes cuja qualidade deixa muito a desejar. Por exemplo, o filme O Jovem Karl Marx (Raoul Peck, 2017). 

Embora a experiência me faça ter alguma prudência face a filmes biográficos e históricos, comecei a vê-lo com a mente aberta. Ainda para mais ajudado pelo entusiasmo de, na faculdade, ter trabalhado bastante textos do “jovem Marx” e lido sobre a sua vida. Mas aconteceu o costume: a sensação de, mais do que um filme, estar a ver um daqueles documentários biografados do canal História ou Odisseia. O realizador limita-se a pegar em wikipédicos momentos da vida dos jovens Marx e Engels, transformando-os depois numa narrativa cinematograficamente pobre. Um filme que assim se torna um bocadinho como um livro de banha desenhada da Ilíada ou da Odisseia, uma coisinha que dê assim para ficar com uma ideia da história sem dar muito trabalho e perder grande tempo.

Ainda assim, tento ser imparcial, esforçando-me por distinguir o que podendo ser mau para mim, pode ser bom para outros, do mesmo modo que o que é bom para mim pode ser mau para outros. Por exemplo, o filme da minha vida é o Menino Selvagem, de François Truffaut, reconheço haver fortes motivos pessoais e subjectivos que fazem com que assim seja, não lhe atribuindo por isso o estatuto de filme excepcional. É excepcional, sim, mas para mim. Pelas mesmas razões, apesar de considerar O Jovem Karl Marx bastante fracote, reconheço que está longe de outros filmes inequivocamente maus, podendo nele encontrar aspectos positivos, ainda que não para meu usufruto pessoal. Isto levou-me a pensar num possível critério de avaliação que consiga separar processos subjectivos e objectivos de modo a conseguir uma total imparcialidade. 

Uma boa possibilidade seria adaptar a primeira fórmula do imperativo categórico kantiano, resultando uma coisa do género: “Vê apenas o filme segundo uma avaliação tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne uma avaliação universal”. O problema um filme ou qualquer objecto artístico conseguir, ao contrário da moral, harmonizar os interesses individual e colectivo. Uma pessoa pode ter um motivo forte para roubar um objecto, o qual é incompatível com o interesse geral da humanidade, e, por essa mesma razão, deixar de o roubar, conseguindo sobrepor o seu lado racional ao seu lado mais instintivo ou emocional. Mas como conseguir tal harmonia quando se trata de uma realidade na qual haverá sempre elementos subjectivos e pessoais impermeáveis a justificações racionais? Um crítico, apenas concentrado em aspectos técnicos do filme, pode considerá-lo obra-prima mas a maioria das pessoas detestá-lo, como pode acontecer o contrário. Voltando a O Jovem Karl Marx, eu posso não ter conseguido chegar ao fim do filme (de facto, não consegui) mas haver pessoas que o tenham apreciado bastante, ainda que movidas por um fascínio histórico, ideológico ou até idolátrico. Daí podermos objectivamente considerar se uma acção é ou não moralmente boa ou, noutro contexto, dizer se uma ponte está bem ou mal construída. O que não acontece com o filme uma vez que este pode ser o filme que cada um quer que seja e vê-lo desse modo, o que não acontece com certas acções e obras de engenharia (ao contrário da Arquitectura). Por isso, ao classificar um filme como este, sinto algum pudor em destruir a sua credibilidade, abrindo uma porta para que não seja, à partida, rejeitado. De 0 a 10, no IMDb, dei-lhe 6. E assim durmo com a consciência tranquila.

19 fevereiro, 2018

O REALIZADOR FANTASMA


Fui ao IMDb para inserir e classificar o filme Linha Fantasma e lembrei-me de rever toda a lista de filmes que já lá inseri e pela minha ordem decrescente de classificação. Nessa lista vê-se, lado a lado, a nossa classificação e a classificação média de cada filme, tendo então reparado na minha tendência para classificar melhor os filmes do que a média. O que bate também certo com o facto das minhas apreciações serem habitualmente mais favoráveis do que as dos críticos, havendo mesmo casos em que críticos arrasam filmes que considerei excelentes, deixando-me até por isso meio atordoado. Ainda agora com Linha Fantasma, filme que só não considero soberbo por uma questão de pudor mas, vá, quase soberbo, há dois críticos do jornal Público que o consideram apenas razoável, críticos de tal modo exigentes que só raras vezes vêem um bom filme e raríssimas vezes um excelente. Como explicar esta discrepância? Estarei eu a projectar o meu habitual bom feitio na maneira como aprecio um filme, ainda que esteja cheio de defeitos? Ou será porque entendo pouco de cinema, sendo por isso facilmente iludido por maus filmes que se fazem passar por bons, ardil a que os críticos são imunes?

Provavelmente, nem uma coisa nem outra. Talvez o crítico seja alguém que assume excessivamente a sua especializada e técnica função, levando o seu olhar clínico ao limite, de maneira que acaba sempre por encontrar defeitos nos filmes, excepto nos clássicos, os quais o tempo tornou bacteriologicamente puros. Fazem-me lembrar aqueles polícias que mandam parar um carro e no caso de quererem mesmo multar o condutor encontram no carro um qualquer pretexto para isso. Não vou ser cínico ao ponto de subscrever aquela frase que diz haver ruas com nomes de escritores, pintores ou músicos mas nenhuma que tenha o nome de um crítico. Mas quem sabe se não serão tantos críticos de cinema, cineastas frustrados que usam a crítica como compensação, na qual, por se tratar de uma metactividade que não tem de ser posta à prova como um filme, existe uma total liberdade de pensar e falar, tomando como referência uma perfeição que raramente existe. Ora, esta não é a minha maneira de ver um filme. E tanto não é que ainda ontem vi um que, apesar de não ser nada de especial, me proporcionou duas horas bem passadas, o suficiente para considerá-lo bom. E se há coisa que me proporciona duas horas bem passadas, só pode mesmo ser uma coisa boa. E se calhar foi mesmo para isso que o cinema nasceu.

18 fevereiro, 2018

O CORPO DAS PALAVRAS

John Singer Sargent | Nonchaloir

«A actriz era uma provençal de olhos escuros e perfil grego, com umas formas roliças e majestosas; tinha o tipo de beleza da mulher que já em jovem exibe uma doce e matura plenitude, e a sua voz era um suave arrulho» George Eliot, Middlemarch

Dizia há tempos uma aluna que a palavra "altruísmo" lhe sugeria, sem saber porquê, qualquer coisa de negativo. Na mesma aula, alguém disse que chamar "estulto" a uma pessoa soava a qualquer coisa de elogioso. Há dias, outra aluna associou a palavra "hedonismo" a aborrecimento e coisas enfadonhas. Estas situações fizeram-me reparar melhor na nossa relação com aquelas palavras que são desconhecidas mas às quais desejamos (ou precisamos) atribuir um significado, tendo como única pista o seu impacto fonético que, na verdade,  nada quer dizer, pois, como ensinou Saussure, a relação entre o significante (som e grafia) de uma palavra e o seu significado, é arbitrária, como bem se pode ver nas palavras "janela", "window", "fenêtre", "ventana" ou "fenster".

Esta tentativa de relação com palavras que não conhecemos lembra o modo como os animais exploram uma coisa desconhecida, sobretudo através do olfacto, para avaliar a sua segurança, nomeadamente na alimentação. As palavras parecem ser organismos vivos, conjuntos de letrinhas com vida própria, as quais farejamos foneticamente e graficamente para daí, como que por magia, tentar retirar um significado. Só que a coisa não é assim tão simples, do mesmo modo que há queijos que cheiram mal mas que sabem bem e perfumes que cheiram bem mas horríveis no paladar, também há palavras agradáveis ou elegantes que sugerem coisas feias, como palavras feias que significam coisas agradáveis e elegantes.

Passei por essa experiência com a palavra "arrulho" neste trecho de Middlemarch: uma palavra feia mas que exprime beleza, elegância, harmonia. Explica o Priberam que "arrulho" significa várias coisas: canto das rolas, canto com que se adormecem crianças, ruído suave de água corrente ou, em sentido figurado, carícia, ternura. Tudo coisas agradáveis. Porém, a palavra é horrível, sendo o seu impacto estético parecido com o de um pedaço de comida que um animal fareja com repulsa. "Arrulho" lembra palavras ásperas e que nada devem à beleza, como porrada, cachaporra, carrada, curral, enxurrada, entulho ou perro. Aliás, com os seus sons "rr" e "lh" quase fica uma mistura de porrada com entulho. O problema não são esses dois sons individualmente mas a mistura dos dois. Palavras como "Chilreio" ou "sussurro" têm o som "rr" mas são bonitas e apaziguadora, chegando a segunda a ter mesmo uns laivos de sensualidade. "Mergulho" ou "galho" têm o som "lh" e são elegantes. Agora, "arrulho" é tão feia que chega a transformar a expressão "suave arrulho" numa espécie de contradição e, neste contexto, completamente desajustada ao retrato que está a ser traçado daquela mulher, apesar do agradável impacto estético do significado. Enfim, também na linguagem as aparências contam, sendo o seu exterior tão importante quanto a sua alma, o que faz com que a bela alma de uma palavra se possa perder num corpo feio. 

16 fevereiro, 2018

SUBLIME AFASIA

Pode a impotência ser boa? Pode. Sentir o desejo de escrever sobre uma pintura ou uma música e não ser capaz, vendo as palavras a tropeçarem umas nas outras até se estatelarem no silêncio. E não ser capaz porque tudo o que possa ser dito será sempre uma traição, quase uma profanação dessa realidade Eu sei que escrever não é o meu maior dom. Escreva lá o que escrever nunca fica tão bom como o meu bacalhau à Gomes de Sá. Mas também sei que há quem escreva pior do que eu e que tenho mais jeito para escrever do que para mudar uma tomada ou consertar o autoclismo. Seja como for, há coisas que são tão boas, tão perfeitas, tão absolutas, que só me resta ficar mudo perante elas. Mesmo dizer "belo", "maravilhoso" ou "sublime" é não dizer nada, apenas balbuciar ou gemer palavras que valem tanto como um "ai" ou um "ui". E tanto assim é que se diz "belo" e "sublime" como se fossem o mesmo. Mas não são. Sobre coisas belas ainda sou capaz de esboçar um discurso, uma vez que a beleza tem uma ordem, uma harmonia que, apesar de livre (ao contrário de um teorema ou de uma lei da Física), pode ser apreendida racionalmente, tornando possível exprimir certos estados mentais. Pode acontecer com uma bela música, uma bela paisagem, um belo poema. Já o sublime, pela sua natureza esmagadora, escapa aos nossos padrões racionais, tornando-nos insignificantes e afásicos. Ora, é um privilégio poder viver esta feliz e perfeita mudez perante o que já tem de tal modo tudo, que já nada mais pode ser dito. E quanto menos conseguir dizer, melhor a natureza do que não pode ser dito. 

15 fevereiro, 2018

OLHA O ROBOT

Woody Allen|Sleeper

Como abomino o acordo ortográfico, continuo (ou pelo menos tento) a escrever um Português decente. Porém, no que diz respeito a escrever coisas que envolvam alunos, como apontamentos, testes ou escrever no quadro, por razões óbvias, sigo o que foi imposto por meia dúzia de irresponsáveis que resolveram adulterar a nossa língua. Hoje, na escola, estive a escrever uns apontamentos para dar numa turma. Entretanto, e com o habitual sentimento de repulsa, escrevo a palavra “perspetiva” cuja fonética me lembra Alberto João Jardim. Escrevo-a e logo automaticamente o computador a altera para “perspectiva”. Muito a custo por ter de desmantelar a palavra que considero ser a correcta, escrevo de novo “perspetiva”, a qual volta a ser alterada. Só à terceira o computador vacila, deixando-a ficar como eu estava a escrevê-la mas, atenção, sem se esquecer de a deixa sublinhada para me avisar de que estou a dar um erro ortográfico, como efectivamente, acredito que estou.

Considero-me até certo ponto uma pessoa normal e sei que não é suposto uma pessoa normal sentir empatia perante uma máquina acéfala como é o caso de um computador. Admito tratar-se de uma coisa estúpida como tantas outras em mim mas foi precisamente isso que senti, do mesmo modo que embirro com um computador no qual escrevo "perspectiva" e logo muda para "perspetiva". Senti-me compreendido por ele, apoiado por ele, sei lá, como duas pessoas que se acabam de conhecer e descobrem que gostam dos mesmos filmes, dos mesmos livros, dos mesmo quadros, que pensam da mesma maneira ou que sofreram na vida coisas parecidas. Ora, provavelmente é isto que vai acontecer num futuro próximo quando passarmos a interagir tanto com robots como com seres humanos. Saberemos sempre que um robot é uma máquina programada para fazer e dizer certas coisas mas acabaremos por projectar neles os nossos sentimentos e ideias, de modo a sentirmos empatia por robots dos quais gostamos ou falta dela pelos de que não gostamos. Um pouco como já acontece com a relação fetichista com certas marcas ou produtos como se de pessoas se tratasse, ou como terá acontecido com filósofos que embora considerassem mecânico o comportamento dos animais, nem por isso deixavam de sentir amizade e afecto por eles. Os alvos dos afectos podem mudar bastante. Mas os afectos e os seus mecanismos serão sempre os mesmos, por muito absurdos que possam parecer.

14 fevereiro, 2018

NA CAMA COM...D. MANUEL CLEMENTE


Uma pessoa não racista critica alguém de outra raça, por um qualquer motivo avulso, da mesma maneira que criticaria uma pessoa da sua raça. Se, todavia, for uma pessoa racista a fazê-lo, ainda que pelo mesmo motivo da anterior, teremos de fazer outra leitura. Já não se trata de um simples juízo que possa ser entendido in media res, mas de um juízo que nos obriga a ir até bem mais a montante para o associarmos a um conjunto de crenças, valores, emoções e sentimentos, que o torna ideologicamente sustentado. E, naturalmente, nada inocente.

Serve esta comparação para o recente apelo à abstinência sexual dos católicos recasados, por parte de D. Manuel Clemente. Mais do que uma simples ideia, posição ou avaliação de um dos mais naturais e universais comportamentos humanos, trata-se de um sintoma. E todo o discurso oficial da igreja católica relativamente ao sexo é um sintoma de uma dimensão latente: uma moral sexual mais católica e teológica, que começa com S. Paulo e os padres da Igreja com Santo Agostinho à cabeça, do que cristã e evangélica. Uma moral que não gosta de sexo, do corpo, do erotismo, da sensualidade, do prazer sexual. Uma moral que, como se pode ver na 1ª Carta aos Coríntios, defende a castidade mesmo entre os casados, os quais só o deverão ser porque mais vale "casar-se do que abrasar-se". Uma moral para a qual "o corpo é templo do Espírito Santo e a este se deve entregar", e para a qual "o desejo de carne é morte" e "inimizade para com Deus". Uma moral que, ao contrário do que acontece na religião protestante ou ortodoxa, obriga o seu clero a uma absoluta castidade e que toma como exemplo de virtude moral e social, homens e mulheres que viveram, e disso orgulhosos, em plena rejeição do corpo, ou que passaram de uma vida segundo o corpo para uma outra segundo o espírito, como foi o famoso caso de Santa Maria Egipcíaca, enfim, uma moral que estigmatiza a expressão clara da sexualidade  mas que o faz de um modo sublimado e neurótico como acontece em muita pintura ou literatura religiosa, sobretudo mística.

Claro que a igreja católica não poderá deixar de ter uma moral sexual que serve para louvar uma sexualidade sã, baseada no amor entre um homem e uma mulher, que impede uma vitória do corpo sobre o espírito, contribuindo assim para a auto-realização do casal verdadeiramente cristão e feliz. Claro que para isto contribui o facto de, naturalmente, sem coito não existir multiplicação, o que obriga a um certo conformismo perante a fatalidade de um corpo sexuado, do qual temos de nos lembrar de quando em vez para ter de cumprir a sua função. E é neste contexto que temos de perceber esta moral defendida por um certo clero que teima em ser mais católico do que cristão. Vale a pena regressar a S. Paulo, desta vez à Carta aos Romanos: "A lei é pecado? De modo algum! Mas eu não conheci o pecado senão por meio da lei. É que eu não conheceria a cobiça se a lei não dissesse «Não cobiçarás»".  Dura lex sed lex.

08 fevereiro, 2018

HETERODOXIA RADICAL

Robert Hutinski

Tenho um daqueles alunos que mal começo a explicar qualquer coisa já está a levantar o braço para intervir, normalmente para discordar. Embora por vezes se torne um bocadinho cansativo e até maçador, prefiro esta incontinente dinâmica céptica à pasmaceira de uma abulia epistémica. Recentemente, porém, durante várias aulas sobre a ética kantiana, não abriu a boca, mudez que muito estranhei, pensando até que se tratasse de algum problema pessoal ou assim. Na última aula voltou então a dar sinais de vida para, com ar de revolta e indignação, dizer que não gostou nada desta matéria. Considerei a reacção normal pois não é obrigatório gostar de Kant ou do assunto em questão. Não resisti a perguntar-lhe, não cinicamente, mas genuinamente interessado, por que razão não estava, pela primeira vez, a gostar de uma matéria. Foi então com o mesmo ar de birra que lá me explicou que não gostava de Kant pela simples razão de nada ali encontrar de que pudesse discordar, enfim, de tudo se encaixar na perfeição. Em suma, não gostava de Kant por estar completamente de acordo com Kant. 

Achei esta reacção não só extraordinária como filosoficamente comovente. Há uns bons anos, tive um aluno que, num teste, escreveu um longo texto no qual dava a sua opinião sobre um certo assunto, concluindo-o dizendo que concordava com a sua própria opinião. Ora, nada tenho contra as pessoas que concordam com as suas próprias opiniões. Mas serei obrigado a admitir, dando-se o caso de ter mesmo de concordar com a minha opinião, que é bem mais estimulante o desespero por não poder discordar da sua opinião do que concordar com ela, desespero esse que estará no mesmo plano do espanto como base da Filosofia.

07 fevereiro, 2018

PANOUVIDO


Seja onde for, a que horas for, em que circunstância for, falar ao telemóvel cada vez mais coincide com o acto de respirar. Vê-se mais gente a falar ao telemóvel do que a não falar. Como se chegou aqui? Tenho várias pistas. Uma delas é porque se pode. Outra, é pensar que, na sequência de uma mutação genética, as pessoas deixaram de saber estar caladas. Seguindo entretanto uma pista urbano-depressiva-existencialista que me ocorreu depois de passar uma tarde a ouvir Joy Division e Radiohead, será para disfarçar uma solidão contemporânea que ataca silenciosamente como um gás. Por fim, admitir que se pode tratar, ainda que no subconsciente dos utilizadores, de uma estratégia para alimentar uma rede de afinidades electivas com o objectivo de se conseguirem diariamente likes e comentários na página do Facebook.

Posto isto, resolvi barbear o problema com a navalha de Ockham, escolhendo a pista mais simples, neste caso, a primeira: fala-se porque se pode. Porque se pode mas também porque se deve, em virtude de uma nova noção de espaço, na linha daquilo a que um filósofo chamado Michel Foucault chama "heterotopia". Imaginemos, noutros tempos, duas pessoas sem nada de especial para dizer uma à outra. Mas se essas duas pessoas fizessem juntas uma viagem de carro ou passassem férias na mesma casa durante uma semana, iriam falar sobre tudo e sobre nada, a qualquer hora do dia. O que acontece hoje com o telemóvel é um processo semelhante e que não era possível com o telefone fixo que, como a palavra indica, nos fixava a um espaço definido e tradicional, o doméstico, que ainda impunha um certo sentido de privacidade. Ora, com o telemóvel dá-se uma anulação do espaço físico que separa as pessoas, tornando-as tão próximas como acontece na viagem de carro ou na casa onde passam férias, deixando assim de haver critério de separação entre o que é ou não importante para justificar uma chamada. De certo modo, o mesmo já se passa com a televisão. A maior parte das pessoas não anda 200 km para ver um jogo de futebol ou nem mesmo na cidade onde vive. Mas se para ver o jogo, ou mil e uma outras coisas sem interesse, bastar sentar-se no sofá da sala, faz-se naturalmente, sem pensar.

O mesmo se passa com o telemóvel, que veio fazer com que toda a gente ficasse na presença, assumida como real, de toda a gente. Ter números de telefone na agenda e não os usar fica assim tão estranho como antigamente pessoas fazerem uma viagem de carro ou passarem férias juntas, sem falar, havendo assim uma pressão para ligar e depois, devido a uma rede de reciprocidades electivas, multiplicar as chamadas até ao infinito, sem qualquer limitação, ainda que para coisas sem importância, por tudo e por nada, seja onde for, a que horas for e em que circunstâncias for. 

06 fevereiro, 2018

PEQUENO MUNDO

Marín |1913

Quanto mais velho estou menos o mundo me interessa. Não é estar alienado dele. Acontece apenas que se tornou demasiado grande, desmedido, esmagador. Hoje o mundo é quase literalmente todo o mundo, oferecido diariamente, hora a hora, sobre tudo e sobre nada., de tal modo que nós já não estamos nele, já não o pisamos, é antes ele que nos pisa, que entra em nós sem pedir licença, esmagando os contornos reais da nossa existência, como um rio que deixa de desaguar no oceano para ser o imenso oceano a alagar com violência o sereno leito do rio. A vida é demasiado preciosa para perdermos tempo com a inutilidade. Não a bela e preciosa inutilidade da finalidade sem fim mas a fútil inutilidade. Se num supermercado tivermos apenas 6 minutos e 27 segundos para procurar meia dúzia de bens essenciais, não iremos perder tempo a vaguear entre prateleiras, ao som de uma indolente música ambiente. Mas é isso que acontece com o que está sempre a chegar de um mundo que se tornou infinito e nos desconcentra do essencial. É que se o mundo é infinito, a nossa vida não o é, sendo uma perda de tempo andarmos entretidos com a espuma que se dissipa mal a onda se estende pela areia. É bom estar informado sob pena de se ficar mesmo alienado do mundo. Mas uma coisa é estar informado sobre o que se passa no mundo, outra é sermos engolidos por ele. E se o mundo se tornou infinito, eu quero continuar livremente a viver a finitude que me cabe e me compraz.

05 fevereiro, 2018

CAUSAS E EFEITOS


A inteligência humana, sendo um bem inestimável, não se livra dos seus grãos de areia. Um dos mais comuns é confundir causas e efeitos: se o italiano que atacou seis africanos tinha em casa um exemplar do Mein Kampf quer isso dizer que ler o Mein Kampf leva as pessoas a terem vontade de ir para a rua matar africanos em vez de irem ao Mcdonald's ou para um jardim namorar. Mas não é assim. O italiano foi ler o Mein Kampf  porque já teria, ou perto disso, vontade de matar africanos, não querendo isto dizer que sentir de repente um desejo de ler o Mein Kampf, implique já um impulso para matar africanos. Não faz pois sentido proibir obras, alegando que a sua leitura leva certas pessoas a quererem matar outras. Por essa ordem de ideias deveria proibir-se o Alcorão por haver terroristas que o têm em casa, proibirem-se romances policiais por poderem dar ideias a pessoas com uma certa inclinação para matar outras ou proibir Bruno de Carvalho de falar ou escrever.

Há neste momento em França uma grande polémica por causa da publicação de obras de autores com ideias anti-semitas e colaboracionistas como Céline e Maurras, tendo até já levado a Gallimard a cancelar a publicação dos panfletos anti-semitas do primeiro. O que até se compreende num país que não se livra de ter no armário alguns esqueletos, como se compreendem ainda as delicadas pinças com que têm de lidar as práxis finas dos alemães sempre que se tratem de assuntos nazis. Mas ter uma consciência histórica não significa agir historicamente como acontece com neo-nazis ou supremacistas brancos. O que acontece é haver pessoas que recorrem à história para legitimar anacrónicas e absurdas ideias e motivações. Creio mesmo que uma consciência histórica, mais do que perniciosos efeitos, terá um papel pedagógico, desde que criticamente enquadrado. Razão tem a ministra da cultura francesa quando diz que comemorar não é celebrar, sendo bem esclarecedores os exemplos que dá. Comemorar é simplesmente trazer à lembrança. Aliás, o filósofo Martin Heidegger (olha quem!) no seu discurso durante uma cerimónia comemorativa do compositor, seu conterrâneo, Conradin Kreutzer, distingue as duas coisas quando diz "Agradeço ainda, em especial, a gratificante missão que foi confiada de proferir um discurso comemorativo nesta homenagem que hoje se realiza". E mais adiante: "Será a festa uma comemoração? Para que haja comemoração (Gedenkfeier) é necessário que pensemos (denken). [...]Os organizadores introduziram no programa um «discurso comemorativo» cuja função é ajudar-nos expressamente a pensar no compositor homenageado e na sua obra".

Ou seja, ele vai comemorar no meio da própria homenagem, significando isto que se pode homenagear sem comemorar, como se pode comemorar sem homenagear, como acontece quando se comemora o nascimento de Hitler ou a última vez que o Sporting foi campeão. Também ler o Mein Kampf, Céline ou Maurras, no sentido de os conhecer e pensar (denken) sobre eles, comemorando-os (Gedenkfeier) está muito longe de os homenagear e celebrar. Claro que os livros podem matar mas matam tal como os automóveis mal conduzidos ou as árvores nas ruas cuja segurança não é avaliada pelos responsáveis. Deve-se deitar fora a água do banho mas também evitar que o bebé vá com ela.